Quilombo da Caçandoca, na região sul de Ubatuba, promove o esporte e o bem-estar social. Projeto nasce para levar às crianças locais esperança por um futuro melhor

A região da Caçandoca, extremo sul de Ubatuba, é uma das mais belas da região, porém guarda um passado violento. No século XIX a área pertencia ao cafeicultor escravagista José Antunes de Sá.

Além do café, havia o plantio de cana-de-açúcar e um engenho.

Após a abolição, muitas famílias decidiram abandonar o lugar e as que ficaram enfrentaram uma ocupação conturbada. Como “posseiros” iniciaram o plantio da banana e da mandioca.

Anos mais tarde, já na década de 70, durante a ampliação da rodovia BR-101, os quilombolas enfrentaram mais um período de luta. Desta vez, contra a especulação imobiliária. Com a rodovia, a área passou a ser alvo de grande interesse, tornando-se uma das áreas mais nobres da região.

Segundo Ramon Soares, estudante de jornalismo e fundador do projeto Afrosurfe, foi, provavelmente, um dos piores momentos vividos pela comunidade local. “Os mais velhos contam que foi muito difícil, pessoas chegavam aqui armadas, houve muito conflito. As máquinas derrubavam as casas, era um cenário de guerra.” Diz Ramon.

Hoje, quem visita o lugar, além de toda a beleza natural é capaz de avistar o luxuoso condomínio do Pulso (praia ao lado da Caçandoca), além de uma suntuosa construção, o Castelo Arautos, pertencente à um polêmico congregado da Igreja Católica.

Para se chegar à Caçandoca é preciso percorrer alguns quilômetros em estrada de terra, rodeada pelo verde exuberante da mata local. A comunidade mantém-se, atualmente, por meio do turismo e da pesca artesanal.

Ao lado de Ramon está Clarice Lourenço, ou Chally como ela prefere ser chamada. “É como todos me conhecem aqui”, diz ela. Estudante de educação física, Chally teve a adolescência “salva” por um projeto social, que muito se assemelha ao que ela tenta desenvolver hoje ao lado do amigo.

“Eu acredito no sucesso do Afrosurfe, e mais do que isso, acredito no poder transformador que um projeto social, focado no esporte, é capaz de ter”, diz Lourenço, que luta Jiu-Jitsu desde pequena por meio do projeto “Guerreiros do Esporte”.

Os pais de Ramon vieram de Camburi, outro Quilombo em Ubatuba. Os de Clarice possuem um quiosque à beira-mar onde a filha trabalha aos finais de semana e possui um dos pasteis mais saborosos que se tem notícia! “A receita do pastel de camarão da minha mãe é realmente muito famosa e as crianças adoram, ainda mais quando ela resolve fazer limonada”, conta Chally.

Já Ramon sobrevive com trabalhos temporários, que inclui ser guia de trilhas (a Caçandoca tem trilhas incríveis para quem curte trekking) e fotógrafo. “Amo fotografia e recentemente ganhei um equipamento de um amigo, Gerônimo Vihena, que faz um trabalho comunitário incrível com foco em comunicação. Fiz meu primeiro ensaio de casamento há pouco tempo e adorei o resultado”, diz Soares.

O surfe surgiu para Ramon aos 7 anos.“Ganhei uma prancha da minha mãe e comecei a ter aulas.” O menino passou a frequentar o primeiro projeto de escola de surfe em uma comunidade Quilombola, localizado na Praia de Camburi (extremo norte de Ubatuba). “Ter feito parte do projeto em Camburi fez com que eu visse a possibilidade de fazer algo semelhante na Caçandoca.”explica Ramon.

Dez anos mais tarde, aos 17, o surfista se incomodou ao ver a quantidade de crianças nas ruas, sem ter o que fazer, além de trabalhar ajudando de alguma forma os pais. “O Afrosurfe nasceu numa temporada de verão enquanto eu pegava onda. Comecei a notar aquelas crianças e a maioria dos pais trabalhando nos quiosques e isso me preocupou”, explica Ramon.

Durante os meses de verão há bastante movimento no lugar, que possui pouca sinalização ou lombadas, para impedir que motoristas trafeguem em alta velocidade.“Chamei dois meninos para surfarem comigo e dois dias depois de pegarem onda com um bodyboard, eles já estavam em pé na prancha de surfe. Aquilo me deu um estalo! Preciso montar um projeto para eles.” Diz Ramon.

O grupo formado por não mais do que três crianças, em pouco tempo, tornou-se uma grande turma. Atualmente, são quase vinte crianças, entre meninos e meninas, que encontraram no surfe razão para sorrir, sonhar ou simplesmente, serem crianças.

O projeto social está engatinhando e precisa de força. O difícil acesso e a dificuldade de comunicação com as pessoas do local atrapalham ainda mais a situação. Além da dificuldade externa, a comunidade enfrenta um problema interno. “O ser humano se apega ao eu e não ao nós. Eles batalharam tanto tempo por esse lugar, que hoje mesmo tendo lutado não conseguem usufruir”, diz Ramon. Os rancores vividos por gerações antepassadas parecem ter deixado uma cicatriz profunda no que restou da comunidade.

Segundo definição etimológica, Comunidade origina-se do Latim com o termo “Communitas” que significa companheirismo, comum, geral, público.
A Caçandoca hoje pouco tem de comum. “Há um ciclo de conflito instaurado na comunidade e a briga é sempre pela terra e não por projetos, pelo espaço”, desabafa Ramon.

“A nova geração sabe sobre o passado de luta, mas agora também quer desfrutar das conquistas e do nosso espaço que por tantos anos eles lutaram pra conquistar. Continuar esse ciclo vicioso de conflito pode acabar banalizando todo esforço”, finaliza.

Banal não é, porém, a garra de Ramon e Clarice, ambos estão determinados a trazer ao lugar, por meio do surfe, a reintegração do entorno e transformar aquilo de fato numa comunidade.

Texto e fotos: Janaína Pedroso