O termo caiçara tem origem na locução caá-içara, termo utilizado por indígenas da família tupi-guarani para denominar estacas e galhos de espinhos colocados em torno das aldeias para proteção

Com o passar do tempo, caiçara passou a ser o nome dado às palhoças construídas nas praias para abrigar as canoas e os apetrechos dos pescadores e, mais tarde, para identificar os indivíduos e comunidades dos litorais paulista, paranaense e sul-fluminense.

O indivíduo caiçara é oriundo dos primeiros brasileiros que, por sua vez, surgiram da miscigenação genética e cultural do colonizador português com o indígena do litoral. Possuem um conjunto de saberes específicos herdados da mistura dos aqui originários índios, dos aqui chegados europeus e dos aqui trazidos africanos, constituindo uma importante matriz identitária brasileira.

A canoa caiçara, assim como sua cultura, resiste aos tempos modernos. Ainda que seja visível a diminuição do número de mestres canoeiros e que o rigor da legislação ambiental proíba a retirada de árvores, as técnicas de produção de canoa são passadas de geração em geração. Muitas das comunidades caiçaras ainda as utilizam no dia a dia para pesca, e o transporte de pessoas e produtos, fazendo um contraste no mar com as embarcações a motor construídas em fibra ou alumínio.

A canoa é símbolo da harmonia do caiçara com a natureza. Por fazer parte da vida do caiçara, tendo alguns deles passado toda a vida sobre uma, elas são por vezes tratadas como se fossem da família, atravessando gerações e fazendo parte da história de muitas famílias caiçaras, sendo responsável pelo o sustento de muitas dessas.

A paixão que passa de pai para filho é o que mantém vivo este saber.
A canoa caiçara é esculpida a partir de um único tronco de árvore exclusivamente através de um modelo mental, não existindo um projeto em papel. O feitio de uma canoa leva aproximadamente dois meses.

Saber que é aprendido através da observação e é aprimorado com o fazer. A canoa só existe na mente do mestre canoeiro que a esculpe e que é reconhecido pelo seu feitio (sua forma de fazer a canoa). O feitio da canoa tem alguns acréscimos ou adaptações no formato da canoa pelo tipo de praia na qual será utilizada e sua funcionalidade.

A arte de esculpir a canoa envolve a escolha certa da madeira (Guapuruvu, Ingá, Timbuiba, Cedro), além de como a madeira é utilizada, onde se deve considerar que o fundo da canoa é o que lhe confere estabilidade, deve-se o mesmo ser feito com a parte mais perfeita da madeira, a maior parte, a mais larga e chata – caso a madeira não esteja na posição certa está arriscado perder a madeira após início do entalhe. 

Utilizando ferramentas como Enxó goiva, Enxó Reta e Machado, ao contar sobre a arte de fazer canoas, mestres canoeiros compartilham que cada mestre tem sua forma de esculpir uma canoa, tendo seu próprio tipo de proa, de boleado, de acabamento, sendo de fato um trabalho de artesão. Geralmente as canoas de pesca são mais bojudas, para que seja possível acomodar mais carga, tendo aproximadamente quatro palmos de boca. Já as canoas de regata são feitas mais estreitas, com mais saída d´água, se tornando muito instável para navegação, sendo chamada pelos caiçaras de “canoa doida”.

Tirar a madeira de forma correta – considerando a fase da Lua para não dar “bicho” – passando pelo corte da canoa, a “batida da linha” para se fazer o formato da proa e da popa, o cuidado com a quilha que existe para dar a direção, funcionando como uma espécie de leme, também não deixando a canoa rodar quando, por exemplo, se pega uma onda. Posicionar o traquete e ter conhecimento da altura do bordo necessário para a praia daquela canoa. Inúmeros detalhes minuciosos e preciosos passados de pai para filho, de mestre para aprendiz, de geração em geração.

Podendo ser dividia em duas categorias, a canoa caiçara borda lisa (canoas de pesca e regata); e a canoa caiçara bordada (com acréscimo de bordadura, para aumentar sua capacidade de carga, como as canoas de voga), as canoas permeiam todo o fazer e viver caiçara.

As Canoas de Voga receberam este nome por seu tipo de remo, o Remo de Voga. Diferente das canoas caiçaras encontradas hoje em dia em Ubatuba, utilizadas para a pesca, onde os remos são no estilo “arma” (parecidos com uma lança), as canoas de voga tinham o seu remo com um cabo de aproximadamente 3 metros de comprimento e a extremidade retangular. Existia no bordo da canoa uma trava para o remo, o que permitia melhor desempenho aos remadores e aplicação da força. Remavam oito pessoas, incluindo o “patrão”, como era chamado o responsável da canoa.

As vogas eram responsáveis por transportar mercadorias das comunidades caiçaras isoladas até os grandes portos e tinham importância vital na garantia da sobrevivência das comunidades caiçaras, sendo o único meio de transporte que interligava o grande centro à comunidade. As Vogas eram especificamente canoas de carga.

No período colonial foi muito utilizada para transporte de material para a construção das fazendas e engenhos, como também transportou açúcar, café e aguardente para embarcações da época. Para Santos e Rio de Janeiro, transportavam tabaco, aguardente e uma infinidade de frutas, hortaliças, aves, ovos, cabritos, esteiras, objetos de barro, além de passageiros. Retornavam com arroz, feijão
e carne.

Muito maiores que as ainda existentes canoas caiçaras, a canoa de voga tinha dimensão de mais de 14 metros de comprimento por 2,0 metros de largura. Para auxiliar nas longas travessias, as vogas contavam com o traquete, como é chamado pelos caiçaras o conjunto de mastro e velas para a navegação “a pano”, quase não utilizada hoje. Se não houvesse vento, então os remos de voga eram acionados por seus remeiros. A navegação à vela foi uma das primeiras adaptações feitas pelos índios em suas canoas, fruto da influência das caravelas dos portugueses.

A canoa de voga já está extinta como meio de transporte de carga e a canoa caiçara resiste, é possível vê-las nas comunidades tradicionais de Ubatuba como ferramenta de trabalho e lazer, encontrando-as no dia a dia do Caiçara.

A grande dificuldade de se manter viva a tradição se dá não só pela redução do número de mestres canoeiros, mas também à proibição da retirada de madeira e legislação que proíbe manutenção de ranchos de pescas à beira mar.

Hoje só é possível retirar uma árvore de dentro da mata que caiu por estar seca, ou por vento, ainda assim apenas através de autorização de órgão competente após registros fotográficos e de dados relacionados ao tamanho, para garantir posteriormente que o registro daquela madeira justifique uma nova canoa.

A ausência de ranchos de pesca à para beira mar para guardar as canoas faz com que as mesmas fiquem expostas à chuva e sol, deixando, como dizem os caiçaras, a madeira “ardida”, que quer dizer podre. Em caso de rachaduras ou reparos, geralmente são feitos com cola e pó de serragem, fazendo com que consertos sejam realizados com baixo custo e baixa complexidade.

O fazer e o usar a canoa integra toda a comunidade. Dotada de técnicas e conhecimentos milenares, a Canoa Caiçara está ameaçada de extinção, como todos os barcos tradicionais. Hoje a Canoa Caiçara passa por processo de registro como bem cultural imaterial junto ao Iphan, para que hajam mecanismos de defesa desta manifestação cultural, promovendo ações de salvaguarda como valorização dos mestres e apoio à transmissão dos seus saberes, melhoria de acesso à matéria prima, registro de direito de imagem e de propriedade intelectual das comunidades possuidoras deste saber e ações para promoção do reconhecimento deste bem cultural pela sociedade.

 

Creio na canoa de voga, no cerco na espia, no espinhel preso à pôita, na rede de minjuada no lagamar…

Trecho do poema Credo Caiçara,
do poeta paratiense Flávio de Araújo