O manguezal, a sinfonia de baleias e golfinhos e os peixes ao redor do Parque Estadual Ilha Anchieta são temas de pesquisas em andamento

Por Renata Mondini Takahashi

Dezenove pesquisas estão em andamento no Parque Estadual Ilha Anchieta (PEIA). As riquezas naturais, culturais e históricas da segunda maior ilha do Litoral Norte de São Paulo são temas de doutorados, mestrados, iniciações científicas e estudos de diversas universidades, institutos de pesquisas, ONGs e empresas de consultoria.

As normas para a realização de pesquisas na ilha estão descritas no Plano de Manejo do PEIA. Um dos principais objetivos é que os estudos ajudem a embasar com dados, métodos e conceitos científicos o planejamento de uso do solo da ilha, onde em 1977 foi criado o Parque Estadual.

Manguezal

A bióloga Pamela Ribeiro é coordenadora da ONG Projeto Caravelas, que realiza uma pesquisa sobre a importância ecológica e ambiental do manguezal no PEIA. Segundo a bióloga, a Ilha Anchieta já foi muito degradada no passado, mas hoje, por ser tratada como área de preservação, apresenta várias fitofisionomias em diferentes estágios de regeneração. Para ela, “talvez uma das mais surpreendentes e peculiares seja justamente um pequeno enclave de mangue que se formou e já se consolidou como ecossistema abrigando fauna característica como os crustáceos guaiamuns.”

No entanto, por ser uma área reduzida, é muito frágil e sujeita a impactos, daí a importância de se conhecer para preservar essa pequena amostra de ecossistema num bioma insular.

Um dos objetivos da pesquisa da ONG Projeto Caravelas é promover educação ambiental junto ao público visitante, indicando inclusive a necessidade de restrição do acesso de turistas ao local. A bióloga defende que o enclave de mangue da Ilha Anchieta requer um trabalho contínuo de monitoramento para garantir a manutenção da biodiversidade emergente naquela área.

Mesmo que as informações coletadas ainda estejam em processo de análise, a pesquisa já conseguiu embasar uma ação no Parque. “Observou-se que a área era bastante impactada, uma vez que havia uma trilha que tinha acesso à Praia de Fora atravessando a área de mangue. A administração do Parque foi alertada para o problema e a trilha foi interditada à visitação através de placas informativas”, conta Ribeiro.

Baleias e golfinhos

O doutorando do Instituto Oceanográfico (IO) da USP Diogo Destro Barcellos, orientado pelo professor doutor Marcos César de Oliveira Santos, pesquisa os cetáceos (baleias e golfinhos) nos arredores do PEIA, realizando a identificação das espécies por meio da ferramenta da acústica.

As baleias e os golfinhos, segundo Barcellos, possuem a habilidade de emitir e interpretar sinais acústicos para comunicação.
Os sinais são usados, por exemplo, para atrair parceiros para cópula, para expressões de alerta entre predadores e presas, e para delimitação de território. Além disso, o biólogo conta que o som pode ser utilizado por esses mamíferos marinhos como um processo de percepção ativa, envolvendo a produção e a recepção de ondas sonoras, fazendo com que, por exemplo, os golfinhos “enxerguem” através do som.

Ele explica que sons subaquáticos podem ser captados e registrados com a utilização de sensores que funcionam da mesma maneira que um microfone. Nesse caso, o sensor é desenvolvido para ser utilizado imerso em água e é conhecido como hidrofone. Esse dispositivo capta e converte as vibrações sonoras em sinais elétricos, que são registrados por um gravador ou software de computador. Com isso, são gerados arquivos digitais que podem ser analisados com apoio de softwares computacionais específicos.

A pesquisa será concluída em julho de 2019. Segundo Barcellos, a partir do estudo será possível ter conhecimento de que espécies fazem uso de área nos arredores do PEIA. “Será possível também confirmar e quem sabe aumentar a lista de espécies de cetáceos já registrados ao longo da costa do Estado de São Paulo. Além disso, será possível relacionar a sazonalidade de uso de área de determinadas espécies registradas”, explica o biólogo.

O estudo sobre baleias e golfinhos nos arredores do PEIA conta com apoio logístico do Instituto Oceanográfico da USP, da base de pesquisa Clarimundo de Jesus e está sendo financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Peixes

A aluna do Instituto Oceanográfico (IO) da USP Cláudia Dahmer e a também graduanda em oceanografia Bianca Gabani realizam, sob orientação da professora doutora June Ferraz Dias, uma pesquisa de iniciação científica sobre a interação entre banhistas e peixes na zona rasa do PEIA.

“Com essa pesquisa pretendemos contribuir para o monitoramento das espécies de peixes encontradas na zona rasa da Ilha Anchieta, bem como avaliar a influência da presença dos banhistas na região, comparando áreas mais visitadas com áreas menos visitadas, para que a gestão do parque possa ter subsídios para suas decisões”, explica Dahmer. Além disso, será relatada a presença de lixo marinho que ocorre nas áreas em que ela mergulhará.

A pesquisa está em fase inicial. A pesquisadora vai aproveitar a alta temporada no verão para fazer as imagens e a coleta de dados ao longo dos pontos de mergulho na ilha. A previsão é que o estudo seja concluído no primeiro semestre de 2019.

Para a professora doutora que orienta a pesquisa que avalia a interação entre turistas e peixes na ilha, o PEIA deveria ser um local menos impactado e esse é um dos pontos a ser explorado no trabalho, além de estudar a região de fundo inconsolidado (rochoso). Estudiosa da ictiofauna (conjunto de peixes de determinada região), Dias afirma que tem notado “diferenças ao longo do tempo da fauna de peixes da região costeira de fundo inconsolidado em Ubatuba, e muito por conta da ação antrópica.”

Outros temas

Além das pesquisas mencionadas, também está em andamento um estudo de sociologia da Universidade Federal de São Carlos sobre o presídio político da Ilha dos Porcos (como era chamada a Ilha Anchieta antigamente), um estudo do Instituto de Biociências da USP sobre palmeiras da Mata Atlântica, um estudo do Instituto Oceanográfico da USP sobre resíduos sólidos nas praias da Enseada de Palmas, um estudo do Instituto de Biociências da UNESP sobre a abundância, ocupação e densidade de mamíferos introduzidos na Ilha Anchieta, entre outros.